NARRAÇÃO

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

OS PRETOS/MULATOS DO SADO: HISTÓRIA DA COMUNIDADE AFRICANA NO ALENTEJO ENTRE ALCÁCER DO SAL E GRÂNDOLA.

 

Introdução

A historiografia portuguesa privilegiou durante muito tempo a análise do império ultramarino, relegando para segundo plano a presença africana dentro do próprio território continental. Essa tendência contribuiu para silenciar experiências de comunidades que, desde cedo, participaram na formação social e cultural do país. Um desses casos é o da comunidade conhecida como os “Pretos do Sado” ou “Mulatos do Sado”, estabelecida entre Alcácer do Sal e Grândola, nas margens da ribeira e do vale do Sado. Entre os séculos XV e XX, esse grupo desempenhou papel relevante no povoamento, na economia e na cultura da região.

Origens da presença africana no Vale do Sado

Desde o século XV que o litoral e o vale do Sado foram nós de integração — e de exploração — das dinâmicas atlânticas portuguesas. Pessoas escravizadas eram trazidas para trabalhar em estâncias agrícolas, pesca e na economia portuária. No conjunto de propriedades agrícolas do Alentejo e nas planícies do Sado, a presença de africanos e seus descendentes esteve associada a culturas como o arroz, e a práticas agrícolas que exigiam trabalho intensivo e especializado. Com o tempo, muitos passaram da condição de escravos a trabalhadores livres, frequentemente concentrados em zonas marginalizadas e insalubres, o que ajudou a formar uma identidade social própria.

A chegada de africanos ao território português intensificou-se a partir do final do século XV, no contexto da expansão marítima e do tráfico atlântico de escravos. Lisboa e Setúbal funcionavam como portas de entrada, de onde muitos cativos eram distribuídos para áreas do interior. O Vale do Sado, caracterizado por terrenos pantanosos e pelo paludismo endémico, apresentava-se como espaço pouco atrativo para camponeses portugueses, que frequentemente optavam pela emigração para outras regiões ou para as rotas imperiais. Nessas circunstâncias, a Coroa e os grandes proprietários locais recorreram à mão de obra africana, considerada mais apta ou resistente às condições insalubres do vale[1].

Durante séculos, o Vale do Sado foi visto como um “espaço morto”, despovoado pela doença e pela dificuldade ambiental[2]. A presença africana tornou-se estruturante nesse vazio demográfico. Escravos e seus descendentes desempenharam funções na pastorícia, no cultivo agrícola e, a partir do século XVIII, na rizicultura, actividade que exigia trabalho intensivo em terrenos alagados[3]. Além disso, a extração de sal, produto essencial da economia local, contou igualmente com essa força de trabalho.

Assim, os africanos e seus descendentes não foram apenas substitutos de uma população ausente, mas agentes fundamentais na transformação de terras pantanosas em áreas produtivas.

 Consolidação comunitária e mestiçagem

Ao longo dos séculos XVIII e XIX houve processos de libertação gradual e integração formal — catolicização, batismos e admissão em práticas religiosas contribuíram para a incorporação social daqueles que já viviam no território. No entanto, a integração foi marcada por estigmas e denominações pejorativas; a comunidade manteve práticas culturais específicas e redes de parentesco que a distinguiram dentro do Alentejo.

Os registos paroquiais e inquisitoriais do século XVI já assinalam a presença de negros e mestiços em Alcácer do Sal e arredores[4]. Ao longo dos séculos, a comunidade consolidou-se, estabelecendo vínculos familiares e sociais e desenvolvendo dinâmicas próprias de integração. A mestiçagem foi contínua, mas observadores externos, como José Leite de Vasconcelos, ainda notavam, no início do século XX, traços físicos associados à ancestralidade africana: “gente de pele escura, cabelo encarapinhado e traços nitidamente negroides”[5].

Essas populações foram designadas por diversos nomes populares — “Pretos do Sado”, “Carapinhas do Sado”, “Mulatos do Sado”, “Atravessadiços” —, categorias que revelam simultaneamente a visibilidade social e o peso do preconceito.

A presença africana no Sado também se refletiu na cultura oral. Cancioneiros populares de Alcácer do Sal registaram versos alusivos à cor da pele e à singularidade das moças da região, como se lê no trecho de um cancioneiro da época:

Ribeira do Sado, ó Sado, Sadeta
Meus olhos não viram tanta gente preta.
Quem quiser ver moças da cor do carvão
Vá dar um passeio até São Romão.”[6]

Além da oralidade, a memória coletiva preserva-se em topónimos como Monte Negro/Montenegro, Negrilhos e Monte das Pretas. Embora a mestiçagem contemporânea tenha diluído marcas fenotípicas mais evidentes, ainda se reconhecem, em famílias locais, traços de ancestralidade africana.

Durante muito tempo, a memória desta comunidade foi silenciada. A designação “negros do Sado” carregava estigmas que marginalizavam socialmente os seus descendentes. Só nas últimas décadas a investigação académica passou a valorizar o seu contributo histórico.

A obra de Isabel Castro Henriques e João Moreira da Silva constitui um marco fundamental ao demonstrar, com base em registos escritos, testemunhos orais e etnografia, que esses grupos não foram sujeitos passivos, mas criaram formas próprias de socialização e resistência[7]. Como sublinha Rui Gomes Teixeira, arqueólogo da Universidade de Durham e do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, “[os pretos do Sado], são pessoas que fazem parte integralmente da formação do país desde uma época muito antiga e, considerando todos estes legados, podemos considerar mesmo Portugal como o país mais africano da Europa”[8].

A história da comunidade africana entre Alcácer do Sal e Grândola é um entrelaçar de coerência e ruptura: coerência na presença contínua ligada a trabalho agrícola e ribeirinho, e ruptura nas formas de estigma, invisibilização e, hoje, no esforço de resgate histórico e arqueológico. Reconhecer essa história é também um passo para políticas públicas de memória, inclusão e valorização patrimonial — um campo que, felizmente, tem recebido mais atenção científica e local nos últimos anos.

Conclusão

A história dos “Pretos do Sado” lembra-nos que a escravatura e a presença africana não se limitaram às colónias, mas marcaram profundamente o território português. Desde o século XV, africanos e seus descendentes asseguraram o povoamento e contribuíram para o desenvolvimento económico e cultural do Alentejo. Embora tenham sofrido com invisibilidade e preconceito, deixaram marcas duradouras na memória colectiva.

Nos últimos anos, projectos arqueológicos e estudos históricos voltaram-se para resgatar e compreender melhor a história da escravatura e das comunidades de origem africana no vale do Sado. Equipes de arqueólogos têm trabalhado em Alcácer do Sal para localizar vestígios materiais e reconstruir práticas e vivências — pesquisa que ajuda a ligar testemunhos orais, documentos paroquiais e evidência material. Conferências e publicações locais e regionais têm também vindo a destacar a toponímia, apelidos, práticas religiosas e testemunhos orais que preservam a memória dos “negros do Sado”.

O reconhecimento dessa comunidade é, hoje, um passo essencial para compreender a complexidade da sociedade portuguesa e o papel constitutivo das populações africanas na formação histórica de Portugal.

 

 

Referências bibliográficas

  • Castro Henriques, Isabel, e João Moreira da Silva. Os «Pretos do Sado»: História e Memória de uma Comunidade Alentejana de Origem Africana (Séculos XV-XX). Lisboa: Colibri, 2019.
  • Leite de Vasconcelos, José. Etnografia Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional, 1933.
  • Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Registos Paroquiais e Inquisitoriais (séculos XVI-XVIII).
  • Cancioneiros Populares de Alcácer do Sal. Arquivo Distrital de Setúbal, col. séc. XIX.
  • Teixeira, Rui Gomes. Entrevistas e comunicações sobre os Pretos do Sado, 2020. In:https://www.oatual.pt/noticias/alcacer-do-sal-arqueologos-investigam-historia-de-escravos

Assista também aos vídeos:



[1] Isabel Castro Henriques e João Moreira da Silva, Os «Pretos do Sado»: História e Memória de uma Comunidade Alentejana de Origem Africana (Séculos XV-XX) (Lisboa: Colibri, 2019).

[2] Ibid.

[3] Ibid.

[4] Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registos paroquiais e inquisitoriais (séculos XVI-XVIII).

[5] José Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa (Lisboa: Imprensa Nacional, 1933), 211.

[6] Cancioneiros populares de Alcácer do Sal, coligidos no século XIX (Arquivo Distrital de Setúbal).

[7] Castro Henriques e Moreira da Silva, Os “Pretos do Sado”.

[8] Rui Gomes Teixeira, entrevista em 2020 à revista “O Atual”, com a temática:  Alcácer do Sal: Arqueólogos investigam História de escravos africanos no Vale do Sado. In: https://www.oatual.pt/noticias/alcacer-do-sal-arqueologos-investigam-historia-de-escravos-africanos-no-vale-do-sado?




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