Introdução
A
historiografia portuguesa privilegiou durante muito tempo a análise do império
ultramarino, relegando para segundo plano a presença africana dentro do próprio
território continental. Essa tendência contribuiu para silenciar experiências
de comunidades que, desde cedo, participaram na formação social e cultural do
país. Um desses casos é o da comunidade conhecida como os “Pretos do Sado” ou
“Mulatos do Sado”, estabelecida entre Alcácer do Sal e Grândola, nas
margens da ribeira e do vale do Sado. Entre os séculos XV e XX, esse grupo
desempenhou papel relevante no povoamento, na economia e na cultura da região.
Origens da presença africana no Vale do Sado
Desde o século
XV que o litoral e o vale do Sado foram nós de integração — e de
exploração — das dinâmicas atlânticas portuguesas. Pessoas escravizadas eram
trazidas para trabalhar em estâncias agrícolas, pesca e na economia portuária.
No conjunto de propriedades agrícolas do Alentejo e nas planícies do Sado, a
presença de africanos e seus descendentes esteve associada a culturas como o
arroz, e a práticas agrícolas que exigiam trabalho intensivo e especializado.
Com o tempo, muitos passaram da condição de escravos a trabalhadores livres,
frequentemente concentrados em zonas marginalizadas e insalubres, o que ajudou
a formar uma identidade social própria.
A chegada de
africanos ao território português intensificou-se a partir do final do século
XV, no contexto da expansão marítima e do tráfico atlântico de escravos. Lisboa
e Setúbal funcionavam como portas de entrada, de onde muitos cativos eram
distribuídos para áreas do interior. O Vale do Sado, caracterizado por terrenos
pantanosos e pelo paludismo endémico, apresentava-se como espaço pouco atrativo
para camponeses portugueses, que frequentemente optavam pela emigração para
outras regiões ou para as rotas imperiais. Nessas circunstâncias, a Coroa e os
grandes proprietários locais recorreram à mão de obra africana, considerada
mais apta ou resistente às condições insalubres do vale[1].
Durante
séculos, o Vale do Sado foi visto como um “espaço morto”, despovoado pela
doença e pela dificuldade ambiental[2]. A
presença africana tornou-se estruturante nesse vazio demográfico. Escravos e
seus descendentes desempenharam funções na pastorícia, no cultivo agrícola e, a
partir do século XVIII, na rizicultura, actividade que exigia trabalho
intensivo em terrenos alagados[3]. Além
disso, a extração de sal, produto essencial da economia local, contou
igualmente com essa força de trabalho.
Assim, os
africanos e seus descendentes não foram apenas substitutos de uma população
ausente, mas agentes fundamentais na transformação de terras pantanosas em
áreas produtivas.
Ao longo dos
séculos XVIII e XIX houve processos de libertação gradual e integração formal —
catolicização, batismos e admissão em práticas religiosas contribuíram para a
incorporação social daqueles que já viviam no território. No entanto, a
integração foi marcada por estigmas e denominações pejorativas; a comunidade
manteve práticas culturais específicas e redes de parentesco que a distinguiram
dentro do Alentejo.
Os registos
paroquiais e inquisitoriais do século XVI já assinalam a presença de negros e
mestiços em Alcácer do Sal e arredores[4]. Ao longo
dos séculos, a comunidade consolidou-se, estabelecendo vínculos familiares e
sociais e desenvolvendo dinâmicas próprias de integração. A mestiçagem foi
contínua, mas observadores externos, como José Leite de Vasconcelos, ainda
notavam, no início do século XX, traços físicos associados à ancestralidade
africana: “gente de pele escura, cabelo encarapinhado e traços nitidamente
negroides”[5].
Essas
populações foram designadas por diversos nomes populares — “Pretos do Sado”,
“Carapinhas do Sado”, “Mulatos do Sado”, “Atravessadiços” —, categorias que
revelam simultaneamente a visibilidade social e o peso do preconceito.
A presença
africana no Sado também se refletiu na cultura oral. Cancioneiros populares de
Alcácer do Sal registaram versos alusivos à cor da pele e à singularidade das
moças da região, como se lê no trecho de um cancioneiro da época:
Além da
oralidade, a memória coletiva preserva-se em topónimos como Monte Negro/Montenegro,
Negrilhos e Monte das Pretas. Embora a mestiçagem contemporânea tenha diluído
marcas fenotípicas mais evidentes, ainda se reconhecem, em famílias locais,
traços de ancestralidade africana.
Durante muito
tempo, a memória desta comunidade foi silenciada. A designação “negros do Sado”
carregava estigmas que marginalizavam socialmente os seus descendentes. Só nas
últimas décadas a investigação académica passou a valorizar o seu contributo
histórico.
A obra de
Isabel Castro Henriques e João Moreira da Silva constitui um marco fundamental
ao demonstrar, com base em registos escritos, testemunhos orais e etnografia,
que esses grupos não foram sujeitos passivos, mas criaram formas próprias de
socialização e resistência[7]. Como
sublinha Rui Gomes Teixeira, arqueólogo da Universidade de Durham e do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, “[os pretos do Sado], são pessoas que fazem parte integralmente da
formação do país desde uma época muito antiga e, considerando todos estes
legados, podemos considerar mesmo Portugal como o país mais africano da Europa”[8].
A história da
comunidade africana entre Alcácer do Sal e Grândola é um entrelaçar de
coerência e ruptura: coerência na presença contínua ligada a trabalho agrícola
e ribeirinho, e ruptura nas formas de estigma, invisibilização e, hoje, no
esforço de resgate histórico e arqueológico. Reconhecer essa história é também
um passo para políticas públicas de memória, inclusão e valorização patrimonial
— um campo que, felizmente, tem recebido mais atenção científica e local nos
últimos anos.
Conclusão
A história dos
“Pretos do Sado” lembra-nos que a escravatura e a presença africana não se
limitaram às colónias, mas marcaram profundamente o território português. Desde
o século XV, africanos e seus descendentes asseguraram o povoamento e
contribuíram para o desenvolvimento económico e cultural do Alentejo. Embora
tenham sofrido com invisibilidade e preconceito, deixaram marcas
duradouras na memória colectiva.
Nos últimos
anos, projectos arqueológicos e estudos históricos voltaram-se para resgatar e
compreender melhor a história da escravatura e das comunidades de origem
africana no vale do Sado. Equipes de arqueólogos têm trabalhado em Alcácer do
Sal para localizar vestígios materiais e reconstruir práticas e vivências —
pesquisa que ajuda a ligar testemunhos orais, documentos paroquiais e evidência
material. Conferências e publicações locais e regionais têm também vindo a
destacar a toponímia, apelidos, práticas religiosas e testemunhos orais que
preservam a memória dos “negros do Sado”.
O
reconhecimento dessa comunidade é, hoje, um passo essencial para compreender a
complexidade da sociedade portuguesa e o papel constitutivo das populações
africanas na formação histórica de Portugal.
Referências bibliográficas
- Castro Henriques, Isabel, e João Moreira da
Silva. Os «Pretos do Sado»: História e Memória de uma Comunidade
Alentejana de Origem Africana (Séculos XV-XX). Lisboa: Colibri, 2019.
- Leite de Vasconcelos, José. Etnografia
Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional, 1933.
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Registos
Paroquiais e Inquisitoriais (séculos XVI-XVIII).
- Cancioneiros Populares de Alcácer do Sal. Arquivo Distrital de Setúbal, col. séc. XIX.
- Teixeira, Rui Gomes. Entrevistas e comunicações sobre os Pretos do Sado, 2020. In:https://www.oatual.pt/noticias/alcacer-do-sal-arqueologos-investigam-historia-de-escravos
[1] Isabel Castro
Henriques e João Moreira da Silva, Os «Pretos do Sado»: História e Memória
de uma Comunidade Alentejana de Origem Africana (Séculos XV-XX) (Lisboa:
Colibri, 2019).
[2] Ibid.
[3] Ibid.
[4] Arquivo Nacional
da Torre do Tombo, Registos paroquiais e inquisitoriais (séculos XVI-XVIII).
[5] José Leite de
Vasconcelos, Etnografia Portuguesa (Lisboa: Imprensa Nacional, 1933), 211.
[6] Cancioneiros
populares de Alcácer do Sal, coligidos no século XIX (Arquivo Distrital de
Setúbal).
[7] Castro Henriques
e Moreira da Silva, Os “Pretos do Sado”.
[8] Rui Gomes
Teixeira, entrevista em 2020 à revista “O Atual”, com a temática: Alcácer do Sal: Arqueólogos investigam
História de escravos africanos no Vale do Sado. In: https://www.oatual.pt/noticias/alcacer-do-sal-arqueologos-investigam-historia-de-escravos-africanos-no-vale-do-sado?
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