NARRAÇÃO

domingo, 21 de setembro de 2025

ESCRAVOS REPRODUTORES: ORIGENS, FUNÇÕES E IMPACTOS NA HISTÓRIA DA ESCRAVIDÃO ATLÂNTICA

 

 

1 – As Origens da Escravidão Reprodutiva

1.1.  Introdução histórica

A escravidão é uma das instituições sociais mais persistentes e controversas da história. Longe de ser apenas um fenómeno restrito à modernidade e ao tráfico atlântico de africanos, ela foi prática estruturante em diversas civilizações antigas, servindo de alicerce para sistemas políticos, económicos e culturais. Uma das dimensões menos discutidas, mas igualmente centrais, é a escravidão reprodutiva: a instrumentalização dos corpos das pessoas escravizadas — sobretudo das mulheres — para fins de reprodução forçada, garantindo a continuidade do sistema escravista.

A reprodução compulsória não deve ser vista como mero subproduto da violência sexual. Pelo contrário, representou uma estratégia consciente de perpetuação da escravidão, transformando a maternidade em capital económico e o nascimento em mecanismo de transmissão da servidão. Como nota Orlando Patterson, “a escravidão é, antes de tudo, uma relação de dominação total, que se estende ao corpo e à descendência”[1].

A análise das origens desta prática implica recuar às primeiras civilizações urbanas da Mesopotâmia e do Egipto, passando pelo mundo greco-romano, e percebê-la como um processo contínuo, cujas raízes se prolongariam até às experiências coloniais modernas.

1.2. Escravidão na Antiguidade

1.2.1 Mesopotâmia

Na Mesopotâmia, considerada o “berço da civilização”, a escravidão era já regulamentada por códigos jurídicos. O Código de Hamurabi (c. 1754 a.C.) estipulava que, se um homem tivesse filhos com uma escrava, estes poderiam ser reconhecidos como herdeiros ou permanecer como cativos, dependendo da decisão do pai:

“Se um homem, tendo filhos de sua esposa, tomar uma escrava e ela lhe der filhos, o pai poderá libertar os filhos ou mantê-los como escravos” (Hamurábi, §170)[2].

Este excerto mostra como a reprodução das escravas não era casual, mas juridicamente regulada, permitindo ao senhor expandir a sua descendência legítima ou reforçar o número de cativos. Além disso, em casos de esterilidade da esposa legítima, a lei autorizava que a escrava fosse usada como concubina, prática que institucionalizava a sua função reprodutiva[3].

Assim, desde cedo, o ventre da mulher escrava foi apropriado como recurso económico e social, antecipando o princípio segundo o qual “a escravidão gera escravidão”.

1.2.2 Egipto Antigo

No Egipto, embora menos documentado juridicamente, há indícios arqueológicos e literários da utilização das escravas como concubinas e mães de filhos escravos. Ostraca encontrados em Tebas registam a posse hereditária de famílias de cativos, confirmando que a descendência era incorporada ao património do senhor[4].

Lucy Meskell destaca que a maternidade entre escravas era “completamente instrumentalizada, reduzida a mecanismo de reprodução da propriedade” [5]. Tal como na Mesopotâmia, filhos de mães escravas nasciam automaticamente ligados ao domínio do senhor, reforçando a ideia de que a reprodução servil já era prática sistemática muito antes da escravidão atlântica.

1.2.3 Grécia Clássica

Na Grécia, a escravidão foi um pilar económico, sobretudo em Atenas e Esparta. Embora a principal fonte de escravos fosse a guerra, há testemunhos claros da exploração sexual de escravas. Aristóteles, na Política, definia o escravo como “um instrumento animado” (organon empsychon)[6], negando-lhe estatuto humano pleno.

As mulheres escravas eram alvo frequente de violência sexual, e os filhos que delas nasciam pertenciam ao dono. Embora não houvesse uma política de “criação de escravos” em larga escala, esta prática funcionava como suplemento ao abastecimento de mão de obra. Autores como Xenofonte relatam a existência de comunidades de escravos domésticos transmitidos de geração em geração[7].

1.2.4 Roma

Foi em Roma que a escravidão reprodutiva atingiu plena formalização jurídica. O princípio do partus sequitur ventrem — “o parto segue o ventre” — determinava que a condição da criança era a mesma da mãe. O Corpus Iuris Civilis estabelecia:

“Os filhos das nossas escravas nascem escravos, mesmo quando o pai for livre” (Digestum, 1.5.5). [8]

Este princípio simplificava disputas legais e consolidava a transmissão hereditária da escravidão. Além disso, senhores romanos encorajavam a reprodução de escravos domésticos e agrícolas para reduzir custos de compra. Keith Bradley observa que “a procriação de escravos se tornou, em muitas propriedades, parte integrante da gestão económica”[9].

Em suma, Roma cristalizou a ideia de que o corpo escravizado era capital biopolítico: trabalhava, reproduzia e transmitia cativeiro. Esta fórmula jurídica seria retomada mais tarde no direito colonial europeu.

1.3. A reprodução como engrenagem económica

Ao longo da Antiguidade, as sociedades escravistas usaram duas vias para repor a mão de obra: captura externa (guerras, tráfico) e reprodução interna (nascimentos de filhos de escravas). A primeira garantia fluxos rápidos de cativos, mas dependia de conflitos e comércio. A segunda, ao contrário, era autossustentável e menos onerosa.

Um escravo nascido “em casa” representava investimento mínimo e, ao crescer, já estava socializado na cultura da obediência. Além disso, o nascimento constante de novos escravos reforçava a “naturalização” da escravidão como instituição permanente. Orlando Patterson sublinha que “o sistema escravista se reproduzia biologicamente, assegurando a sua continuidade através da apropriação da fertilidade feminina”[10].

As mulheres foram o centro nevrálgico deste processo. A sua dupla exploração — laboral e sexual — fazia delas peças-chave na engrenagem escravista.

Na Mesopotâmia, contratos de adoção e herança previam explicitamente o uso de escravas como substitutas de esposas estéreis[11]. Em Roma, algumas propriedades obrigavam as escravas a manter relações com outros cativos para estimular a natalidade. Bradley observa que “o ventre escravo era tratado como recurso económico”[12].

Além disso, a possibilidade de vender os filhos separadamente das mães ampliava os lucros. A maternidade, longe de ser protegida, era fragmentada e comercializada, reduzida a transação económica.

A institucionalização da hereditariedade foi um passo crucial. A criança nascia já “marcada” pela condição materna, sem possibilidade de contestação. Este princípio, consagrado em Roma, reapareceria em legislações coloniais como as Ordenações Filipinas[13] em Portugal e, mais tarde, nos códigos escravistas do Brasil e dos Estados Unidos.

Ao apropriar-se da capacidade reprodutiva das mulheres, os senhores não apenas exploravam o presente, mas também o futuro. Como nota Michel Foucault, “o poder incide sobre a vida, fazendo do corpo o lugar da acumulação e da reprodução”[14].

Apesar da eficácia económica, a escravidão reprodutiva gerava tensões sociais. As esposas legítimas dos senhores viam-se confrontadas com a presença de concubinas escravas e filhos ilegítimos. A ambiguidade do estatuto desses descendentes — por vezes reconhecidos, por vezes abandonados — criava conflitos familiares e jurídicos.

Em Atenas, a cidadania era rigidamente reservada aos filhos de pais cidadãos, o que excluía automaticamente os descendentes de escravas[15]. Em Roma, alguns senhores libertavam filhos ilegítimos, criando grupos de libertos que ocupavam posição intermediária na sociedade[16]. Essas ambiguidades mostram que a escravidão reprodutiva não era apenas prática económica, mas também campo de negociação social e moral.

Portanto, as origens da escravidão reprodutiva estão profundamente enraizadas nas primeiras civilizações humanas. Desde a Mesopotâmia ao Egipto, da Grécia a Roma, consolidou-se a ideia de que o ventre escravo era capital, e de que a escravidão se podia perpetuar biologicamente.

A importância desta prática não pode ser subestimada: ela forneceu o alicerce jurídico e cultural para sistemas escravistas posteriores, incluindo o tráfico atlântico. Ao transformar a maternidade em trabalho forçado e a descendência em propriedade, a escravidão reprodutiva converteu a própria vida em mercadoria.

Assim, compreender estas origens é essencial para perceber a longa duração da escravidão e as suas continuidades, sobretudo quando analisarmos, nos capítulos seguintes, como estas práticas foram retomadas e intensificadas no contexto das Américas e de África.

 

2 – A Escravidão Reprodutiva na Idade Média

2.1. O legado romano e a transição medieval

A Idade Média (séculos V–XV) foi um período marcado por profundas transformações políticas, religiosas e económicas, mas a escravidão, longe de desaparecer, continuou a ser um elemento estruturante das sociedades. O colapso do Império Romano do Ocidente não significou o fim da escravidão, mas sim a sua reconfiguração. Em vez de se centrar unicamente nos latifúndios e nas instituições urbanas, a escravidão medieval adaptou-se a novos contextos: o mundo bizantino, as sociedades islâmicas, a cristandade ocidental e o comércio mediterrânico.

No interior destes sistemas, a escravidão reprodutiva manteve-se como prática recorrente. O controlo da fertilidade das mulheres escravizadas continuou a ser utilizado tanto para aumentar a mão de obra quanto para satisfazer interesses dinásticos, militares e sexuais. Como observa Pierre Bonnassie, “a Idade Média não conheceu a abolição da escravidão, mas a sua metamorfose”[17]. Essa metamorfose incluiu o reforço da reprodução compulsória como parte da lógica de perpetuação da dependência.

Com a queda de Roma, muitos elementos do sistema escravista foram incorporados pelos reinos bárbaros. O princípio jurídico romano do partus sequitur ventrem — que determinava que os filhos de escravas eram automaticamente escravos — manteve-se em vigor em várias regiões da Europa[18]. Essa continuidade assegurou que a descendência feminina permanecesse uma das principais fontes de reposição da servidão.

Contudo, na Europa ocidental, a escravidão foi progressivamente cedendo espaço ao servilismo (ou “servidão da gleba”), em que os camponeses estavam presos à terra e ao senhor feudal. Apesar dessa mudança, as formas de dependência não se tornaram menos violentas. Muitas comunidades servís mantinham práticas de casamento controlado, em que o senhor tinha o direito de aprovar uniões ou mesmo de explorar sexualmente as mulheres dependentes. Jacques Le Goff observa que “o corpo feminino, especialmente o do estrato servil, permaneceu um campo de disputa e de dominação”[19].

No entanto, em regiões periféricas da Europa (como a Península Ibérica, a Sicília e o sul de Itália), a escravidão clássica nunca desapareceu por completo, sendo constantemente reabastecida por guerras de fronteira e pelo comércio mediterrânico.

2.2. Escravidão reprodutiva no mundo bizantino

O Império Bizantino (330–1453) herdou do direito romano não apenas a instituição da escravidão, mas também o princípio da transmissão hereditária. Fontes jurídicas bizantinas, como o Ecloga de Leão III (726), confirmam que os filhos de escravas eram considerados propriedade do dono da mãe[20].

As escravas eram utilizadas em actividades domésticas, agrícolas e urbanas, mas a sua função reprodutiva tinha papel central. Tal como em Roma, era comum que senhores obrigassem escravas a manter relações com outros cativos para aumentar a natalidade. Além disso, a corte imperial bizantina mantinha haréns compostos por escravas estrangeiras, frequentemente capturadas nas fronteiras balcânicas e caucasianas.

Essas mulheres eram integradas não apenas como concubinas, mas também como mães de futuras gerações de servos da corte. O historiador Michael McCormick destaca que “a fertilidade das mulheres capturadas foi uma das armas do expansionismo bizantino, que assegurava assim reservas de mão de obra sem depender exclusivamente da guerra”[21].

2.3. O mundo islâmico medieval

2.3.1 O tráfico e os haréns

Com a expansão islâmica a partir do século VII, a escravidão conheceu novas dinâmicas. O Alcorão não abolia a escravidão, mas regulava-a. Embora incentivasse a libertação como acto de caridade, aceitava a posse de escravas e a sua utilização sexual, desde que fossem reconhecidas como “mulheres que a mão direita possui” (ma malakat aymanukum)[22].

A partir do século VIII, formaram-se vastas redes comerciais que abasteciam os mercados islâmicos com escravos oriundos da África Oriental (Zanj[23]), da Ásia Central (turcos) e da Europa oriental (eslavos[24]). Muitas destas mulheres eram incorporadas em haréns — instituições que combinavam poder sexual, político e reprodutivo.

Nos haréns, a escravidão reprodutiva foi sistematizada. Concubinas escravas podiam dar filhos ao senhor, e se este os reconhecesse, os descendentes podiam ser legitimados e até ascender a posições de poder. O exemplo mais famoso é o de Shajar al-Durr, escrava de origem turca que se tornou rainha do Egipto em 1250[25].

2.3.2 Os mamelucos e a reprodução controlada

Outro caso particular foi o dos mamelucos, escravos militares de origem turca e circassiana, que serviam como força de elite em vários territórios islâmicos. Embora inicialmente fossem recrutados ainda crianças, muitos estabeleciam famílias após a manumissão, reproduzindo uma elite escrava que perpetuava a dependência através da linhagem.

A utilização das mulheres escravizadas como concubinas e mães de guerreiros criava uma ligação entre escravidão reprodutiva e poder político. Segundo Ehud Toledano, “o sistema islâmico baseava-se num equilíbrio entre a apropriação sexual e a mobilidade social dos descendentes, o que permitia a integração de elementos externos”[26].

2.4. A cristandade ocidental

2.4.1 Escravidão na Península Ibérica

Na Península Ibérica medieval, marcada pela longa convivência e conflito entre cristãos e muçulmanos, a escravidão assumiu formas híbridas, resultantes do cruzamento de tradições jurídicas romanas, islâmicas e cristãs. Desde o período da ocupação muçulmana (séculos VIII–XV), prisioneiros de guerra e populações submetidas eram transformados em escravos, alimentando redes comerciais que ligavam o Magrebe, o Mediterrâneo e a Europa meridional.

Durante as guerras da Reconquista, capturar muçulmanos (moros) e também cristãos derrotados era prática recorrente. Esses cativos eram redistribuídos como mão de obra agrícola, doméstica ou militar, reforçando tanto a economia senhorial quanto a expansão territorial dos reinos cristãos. As incursões marítimas no Mediterrâneo e no Atlântico, por sua vez, forneciam africanos, eslavos (“escravos” no próprio étimo da palavra) e até mesmo prisioneiros de pirataria.

Um traço recorrente, confirmado por documentos notariais em Portugal e Castela, era o uso das mulheres escravizadas como concubinas ou amas de leite nas casas nobres. A escravidão, nesse contexto, não era apenas uma relação mão de obra doméstica, mas também de reprodução controlada ou úteros controlados. O ventre escravo tornava-se uma extensão da propriedade senhorial: os filhos nascidos de escravas pertenciam legalmente ao dono, consolidando o princípio da hereditariedade do cativeiro[27]. Esse mecanismo tinha implicações profundas, pois criava uma fonte “doméstica” de renovação da escravaria, reduzindo a dependência das capturas externas.

A dimensão económica dessa prática não pode ser negligenciada. Além de fornecer mão de obra estável e barata, a reprodução escrava permitia aos senhores obter lucro com a venda de crianças escravizadas. Registros em Lisboa e Sevilha já no século XIII atestam a existência de mercados activos, onde crianças eram transacionadas em grande número, muitas vezes separadas precocemente das mães[28]. A escravidão infantil, portanto, não era exceção, mas parte estruturante da economia urbana ibérica.

É importante observar que, embora a Igreja Católica em teoria condenasse a escravização de cristãos, aceitava e legitimava a posse de muçulmanos e “infiéis”, desde que não batizados. Essa fronteira religiosa reforçou a lógica da escravidão como instrumento de guerra santa: capturar e escravizar o “outro” era sinal de vitória e domínio. No entanto, na prática, nem sempre essa barreira era respeitada, e havia casos de cristãos pobres ou órfãos vendidos como servos quase em condição de cativeiro.

A escravidão ibérica também se inseria nas dinâmicas urbanas. Em Lisboa, por exemplo, no final da Idade Média, era comum que famílias de comerciantes, artesãos e até clérigos possuíssem escravos, utilizados em serviços domésticos, como carregadores, cozinheiras ou aprendizes forçados em ofícios. O mesmo se verificava em Sevilha, que se tornou um dos principais entrepostos de redistribuição de escravos africanos e mediterrânicos.

Assim, a escravidão na Península Ibérica constituiu um laboratório social e jurídico. Nela se consolidaram práticas como a hereditariedade do cativeiro, o uso do ventre feminino como recurso económico e a mercantilização da infância escravizada. Esses elementos seriam posteriormente transpostos, em escala muito maior, para o sistema atlântico que os reinos ibéricos – sobretudo Portugal e Castela – estruturaram a partir do século XV, com o início do tráfico negreiro da África para as Américas.

2.5. A escravidão africana pré-Atlântica

É fundamental reconhecer que a África não era apenas fonte de escravos destinados ao tráfico atlântico, mas também um espaço onde formas de cativeiro e servidão já tinham longa tradição. Antes mesmo da expansão europeia no continente, várias sociedades africanas praticavam a escravidão em moldes locais, inserida nas dinâmicas sociais, políticas e económicas da região.

Entre os iorubás, hauçás, mandingas e muitos outros povos, a escravidão tinha carácter interno e variava desde o trabalho agrícola até funções militares e administrativas. Um traço marcante era a reprodução controlada: os filhos de escravas eram frequentemente considerados propriedade do chefe, do rei ou do senhor, o que perpetuava a condição de cativeiro e garantia a continuidade da força de trabalho e da dependência social[29]. Essa lógica reforçava a escravidão como uma instituição estrutural e não apenas circunstancial.

Contudo, diferentemente das conceções mediterrânicas ou clássicas, a escravidão africana tinha dimensões que ultrapassavam a mera exploração económica. Paul Lovejoy observa que “em África, a reprodução de escravos era essencial não apenas para o trabalho, mas para a construção de linhagens e redes de clientela”[30]. Ou seja, o cativo podia ser incorporado em estruturas políticas e familiares, desempenhando papéis que iam além da servidão, funcionando como elemento de reforço de poder e prestígio dos chefes.

De fato, em muitos reinos, como o do Benim, do Congo e de Mali, os escravos não eram vistos apenas como propriedade, mas também como moeda política. Eram oferecidos como dotes matrimoniais, usados em negociações diplomáticas ou empregados como guardas e conselheiros próximos dos soberanos. Essa diversidade de funções mostra que a escravidão africana não era uniforme, mas moldada pela lógica social de cada região.

Outro ponto importante é a permeabilidade relativa do sistema. Embora a escravidão fosse, em regra, hereditária, havia mecanismos que permitiam ao cativo ou a seus descendentes a integração gradual na comunidade. O casamento, a adoção simbólica em linhagens ou a ascensão pela lealdade ao chefe podiam abrir brechas para mobilidade social, algo muito mais limitado no sistema escravista atlântico posterior.

Ainda assim, não se pode romantizar esse quadro. A escravidão interna africana era uma realidade dura, marcada por coerção, hierarquia rígida e violência. Conflitos armados entre etnias ou reinos muitas vezes resultavam na captura de prisioneiros de guerra, que eram incorporados como escravos — um processo que, mais tarde, seria intensificado pelo comércio atlântico, ampliando de forma exponencial essa lógica de captura.

Portanto, a escravidão africana pré-Atlântica deve ser entendida em sua complexidade: não como uma forma “suave” ou “benigna” de servidão, mas como uma instituição profundamente enraizada nas estruturas sociais, capaz tanto de exclusão quanto de integração, e que forneceu a base sobre a qual o tráfico transatlântico iria operar e expandir-se em escala inédita.

Em suma, a Idade Média não foi um período de retrocesso em relação à escravidão reprodutiva, mas sim de consolidação e diversificação. Do Império Bizantino ao mundo islâmico, das cortes ibéricas às sociedades africanas, a apropriação da fertilidade feminina continuou a ser mecanismo central de perpetuação da escravidão.

Três elementos sobressaem:

  1. Continuidade jurídica do princípio romano da hereditariedade.
  2. Institucionalização da reprodução forçada em haréns, cortes e propriedades rurais.
  3. Globalização inicial do tráfico de escravos, ligando África, Europa e Ásia.

Estes elementos prepararam o terreno para a expansão atlântica dos séculos XV–XVI, quando Portugal e Espanha aplicariam, em larga escala, os modelos herdados da Antiguidade e da Idade Média.

 

3 – A Escravidão Reprodutiva nas Américas

A colonização europeia das Américas, iniciada no final do século XV, transformou profundamente a estrutura social, económica e política do continente. A escravidão, enquanto instituição, tornou-se um pilar central das economias coloniais, especialmente nas regiões do Caribe, América Central e América do Sul. Embora a exploração do trabalho físico dos escravizados seja amplamente documentada, uma dimensão crucial e menos abordada é a escravidão reprodutiva, isto é, a apropriação da capacidade reprodutiva das mulheres escravizadas para garantir a continuidade do sistema escravista e expandir a força de trabalho sem custos adicionais.

A exploração da reprodução feminina nas Américas tinha objectivos claros: perpetuar a condição de cativeiro, maximizar o lucro económico e consolidar hierarquias raciais e sociais. Segundo Orlando Patterson, “a escravidão reprodutiva nas Américas funcionava como extensão lógica do sistema escravista, transformando a maternidade em instrumento de dominação e produção”[31]. Este ponto examina, em detalhe, a aplicação e consequências desta prática, com ênfase nas experiências do Brasil, das colónias inglesas e espanholas, bem como nas suas implicações sociais e culturais.

A escravatura nas Américas assentava não apenas na exploração do trabalho, mas também na apropriação integral do corpo humano como capital. O escravo não era visto somente como força de trabalho descartável, mas como um investimento que podia multiplicar-se biologicamente. A partir do momento em que o tráfico atlântico foi encerrado nos Estados Unidos, em 1808, a reprodução natural das populações cativas passou a ser considerada um recurso económico estratégico. Assim, o corpo escravizado foi reduzido a um “capital reprodutivo” — uma mercadoria capaz de gerar outras mercadorias .

Este processo tinha um carácter duplo: por um lado, a mulher escravizada foi forçada a tornar-se “matriz de produção de mão-de-obra”; por outro lado, alguns homens escravizados foram transformados em “reprodutores” (ou studs), sendo utilizados de forma compulsória para garantir a fertilidade das plantações. Em ambos os casos, a sexualidade foi destituída de intimidade, desejo ou afecto, convertendo-se em instrumento de acumulação de capital.

3.1. O princípio do partus sequitur ventrem

Um dos fundamentos jurídicos da escravidão reprodutiva nas Américas foi o princípio romano do partus sequitur ventrem, que determinava que a condição de escravo era transmitida pela mãe[32]. Essa regra legal foi adoptada nas colónias europeias, garantindo que todos os filhos de mulheres escravizadas nascessem igualmente escravizados, independentemente do pai.

No século XVII, a colónia da Virgínia formalizou esta regra em legislação específica, estabelecendo que “todos os filhos nascidos de mulheres escravizadas seriam escravizados, assegurando assim a continuidade do sistema”[33]. Este mecanismo legal transformou a reprodução feminina em ferramenta de acumulação de capital humano, permitindo que os senhores ampliassem a força de trabalho sem depender exclusivamente do tráfico de novos escravizados.

3.2. A escravidão reprodutiva no Brasil

O Brasil colonial destacou-se como o maior receptor de africanos escravizados no período atlântico, com cerca de 5,5 milhões de africanos transportados entre os séculos XVI e XIX[34]. A economia açucareira, posteriormente expandida para o ouro e café, dependia intensamente do trabalho escravo. Nesse contexto, a reprodução das mulheres escravizadas tornou-se central para a manutenção da mão de obra e para a maximização do lucro.

3.2.1. Legislação e controle da reprodução

O sistema legal colonial consolidou a hereditariedade da escravidão. As crianças nascidas de mulheres escravizadas eram automaticamente propriedade do senhor, garantindo uma reposição constante da força de trabalho. A Lei do Ventre Livre (1871), embora declarasse livres os filhos de mulheres escravizadas nascidos após sua promulgação, permitia que esses filhos permanecessem em condições de trabalho quase escravo até completarem 21 anos, podendo ser alugados ou vendidos durante esse período[35].

Além disso, a Lei dos Sexagenários (1885) libertava os escravizados acima dos 60 anos, mas muitos permaneciam ligados às mesmas propriedades devido à precariedade económica e social. Estes mecanismos legais revelam como a reprodução das mulheres escravizadas foi explorada sistematicamente para prolongar o sistema escravista até mesmo nos períodos finais da escravidão formal.

3.2.2. A exploração sexual e a maternidade forçada

As mulheres escravizadas eram frequentemente sujeitas a relações sexuais forçadas, quer com os senhores, quer com capatazes ou outros escravos designados. Essa exploração sexual não era apenas um abuso individual, mas uma estratégia deliberada para gerar filhos que fossem propriedade do senhor. Estudos de Mary Karasch indicam que, em algumas regiões do Brasil colonial, os filhos de escravas representavam entre 30% e 50% da reposição da força de trabalho, evidenciando a centralidade da reprodução forçada na economia escravista[36].

Além disso, a maternidade forçada tinha consequências psicológicas e sociais profundas. As mulheres eram separadas de seus filhos por vendas ou transferências, e a transmissão de conhecimentos culturais e espirituais tornava-se um acto de resistência e preservação da identidade afrodescendente.

3.3. Escravidão reprodutiva nas colónias inglesas da América

Nas colónias inglesas da América do Norte, a escravidão reprodutiva também foi sistemática. O princípio do partus sequitur ventrem consolidou a transmissão hereditária da escravidão[37]. As mulheres escravizadas eram frequentemente submetidas a exploração sexual para gerar filhos que seriam escravizados, garantindo reposição de mão de obra e lucro para os senhores.

No século XVIII, os senhores de plantações da Virgínia e Carolina do Sul incentivavam a reprodução entre escravas e entre escravos selecionados, estabelecendo uma espécie de “programa de reprodução” informal. Kenneth Morgan destaca que “a escravidão reprodutiva na América Inglesa não se limitava à coerção individual; era uma estratégia de acumulação económica sistemática”[38].

Essa prática contribuiu para que, ao final do século XVIII, a população escrava norte-americana pudesse crescer internamente, diminuindo a dependência do tráfico africano e consolidando hierarquias raciais e sociais rígidas.

3.4. Escravidão reprodutiva nas colónias espanholas

Nas colónias espanholas, a escravidão reprodutiva também estava presente, embora a complexa hierarquia de castas tornasse a relação mais ambígua. Mulheres negras e indígenas eram frequentemente integradas em casas de colonos, obrigadas a servir como concubinas e mães de filhos que passariam a ser propriedade do senhor.

O sistema de castas permitia alguma mobilidade para os descendentes, mas isso não alterava a lógica fundamental: a reprodução das mulheres escravizadas servia à acumulação de capital humano e à manutenção do sistema. Estudos sobre o México colonial indicam que filhos de mulheres escravizadas constituíam até 40% da população escrava urbana, demonstrando a relevância da reprodução controlada[39].

3.5. Resistência feminina e estratégias de subversão

Apesar da opressão sistemática, as mulheres escravizadas desenvolveram diversas formas de resistência. A maternidade tornou-se um meio de preservação cultural, transmitindo valores, religiões e línguas africanas aos filhos. Além disso, muitas mulheres participaram de fugas, quilombos e revoltas, subvertendo diretamente a lógica da escravidão reprodutiva.

Mary Karasch argumenta que “a resistência feminina não se limitava à fuga física; ela incluía a preservação da identidade e o cuidado com os filhos, transformando o próprio acto de dar à luz em resistência silenciosa”[40].

A escravidão reprodutiva nas Américas deixou marcas profundas na sociedade pós-abolição. A construção de hierarquias raciais, a feminização da pobreza e a segregação social são heranças diretas da exploração da maternidade escravizada. Além disso, a reprodução forçada contribuiu para a formação de comunidades afrodescendentes urbanas e rurais, cujas práticas culturais refletiam resistência e preservação de identidades africanas.

Segundo Stuart Schwartz, “a reprodução forçada moldou não apenas a economia colonial, mas também a demografia e a cultura, criando populações afrodescendentes que perpetuaram tradições africanas em solo americano”[41].

3.6. O Corpo Escravizado como Capital Reprodutivo

3.6.1. A Objectificação Sexual das Mulheres Cativas

Desde os primórdios da escravatura atlântica, as mulheres negras foram alvo de dupla exploração: enquanto trabalhadoras e enquanto corpos sexualizados. Deborah Gray White demonstra como, no Sul dos Estados Unidos, criou-se o estereótipo da “Jezebel”, a mulher negra supostamente promíscua, que servia para justificar abusos sexuais por parte dos senhores[42]. Este estigma não era fruto de características reais das escravizadas, mas sim uma construção ideológica destinada a legitimar a apropriação dos seus corpos.

Jennifer Morgan aprofunda esta leitura ao afirmar que o ventre feminino foi incorporado na lógica da propriedade: “cada nascimento significava uma nova entrada no inventário”[43]. Desta forma, a reprodução não era uma dimensão natural da vida, mas uma imposição controlada, vigiada e explorada. Muitos senhores estimulavam gravidezes precoces, calculando o retorno económico a longo prazo. Como observa Daina Berry, “a criança ainda não nascida já tinha valor monetário, estimado pelos negociantes”[44].

3.6.2. O Papel dos Homens como Reprodutores

A exploração reprodutiva não se limitava às mulheres. Muitos homens, seleccionados por atributos físicos de robustez e saúde, eram forçados a relações sexuais, independentemente do seu consentimento. Esses indivíduos eram tratados como “machos de reprodução”, um estatuto que lhes retirava qualquer dignidade, reduzindo-os a instrumentos biológicos[45].

Angela Davis observa que, apesar de o discurso dominante da época associar a virilidade negra à ameaça, essa mesma virilidade era instrumentalizada em proveito dos senhores[46]. O paradoxo é evidente: o homem negro era simultaneamente criminalizado como “perigoso” e forçado a reproduzir-se como reprodutor. Tal realidade produzia um impacto devastador na noção de masculinidade dos escravizados, que se viam privados da possibilidade de exercer a paternidade e o afecto familiar.

3.7. O Valor Económico da Reprodução

O corpo escravizado, transformado em capital, tornou-se elemento central no crescimento económico dos Estados Unidos no século XIX. Edward Baptist mostra como o “capital humano” da escravatura foi directamente responsável pela expansão da economia algodoeira, que alimentava a Revolução Industrial na Europa[47]. Quando o tráfico foi encerrado, a reprodução interna dos escravizados converteu-se na principal forma de assegurar a oferta de mão-de-obra.

Nas plantações, as mulheres em idade fértil eram avaliadas pelo número de filhos que podiam gerar, e os homens jovens eram negociados segundo a sua capacidade física e “qualidade genética” presumida[48]. Os mercados de escravos anunciavam frequentemente mulheres com menção ao número de filhos já nascidos, ou homens descritos como “bons reprodutores”[49]. Tais práticas confirmam que a reprodução não era acessória, mas parte do próprio funcionamento económico da escravatura.

 

 

4 – A Abolição e as Heranças da Escravidão Reprodutiva

A abolição da escravidão nas Américas constituiu um processo gradual e desigual, marcado por pressões internas e externas, mudanças económicas e transformações sociais profundas. Entretanto, a abolição formal não extinguiu imediatamente as consequências da escravidão reprodutiva, que deixou marcas duradouras na estrutura demográfica, familiar e cultural das sociedades pós-escravistas. Este capítulo explora as etapas legais da emancipação, os mecanismos de transição do trabalho escravo para formas de exploração semi-livre e a persistência das desigualdades associadas à exploração da reprodução feminina durante a escravidão.

4.1. A abolição formal da escravidão

A abolição da escravidão ocorreu de forma escalonada, variando entre países e regiões:

  • Brasil: A abolição completa foi decretada em 1888 com a Lei Áurea, após a promulgação da Lei do Ventre Livre (1871) e da Lei dos Sexagenários (1885). Apesar da liberdade legal, muitos ex-escravizados permaneceram ligados economicamente aos antigos senhores devido à falta de terras e recursos[50].
  • Estados Unidos: A escravidão foi abolida em 1865 com a Décima Terceira Emenda, após a Guerra Civil. A população afrodescendente, entretanto, enfrentou décadas de segregação legal e discriminação racial sistemática, refletindo a herança da escravidão reprodutiva[51].
  • Colónias espanholas: A abolição foi mais fragmentada, ocorrendo entre 1810 e 1886 em diferentes regiões, incluindo México, Colómbia, Cuba e Porto Rico. Cada processo envolveu negociações complexas entre elites locais, populações afrodescendentes e pressões internacionais[52].
  •  Colónias inglesas: A escravidão foi abolida progressivamente com o Slavery Abolition Act de 1833, que extinguiu a escravidão no Império Britânico (exceto territórios da Índia). Nos territórios das Caraíbas e América do Norte britânica, o processo incluiu um período de “aprendizagem” (apprenticeship) até 1838, durante o qual ex-escravizados continuaram trabalhando sob contratos coercitivos.
  •  Colónias francesas: A escravidão foi abolida em 1794 na França revolucionária, mas restaurada por Napoleão em 1802. A abolição definitiva ocorreu em 1848, afetando colônias como Martinica, Guadalupe, Guiana Francesa e Reunião. A implementação prática encontrou resistência local e exigiu intervenção administrativa direta.
  • Colónias belgas: Na Congo Belga, a escravidão formal como prática legal não era reconhecida, mas o regime colonial (1885–1908) explorou o trabalho forçado, impostos em produtos e violência sistemática, com efeitos semelhantes à escravidão até reformas tardias no início do século XX.
  • Colónias portuguesas: A escravidão foi abolida progressivamente: em 1854 em Portugal continental, seguida de medidas nas colónias africanas, como Cabo Verde, Angola e Moçambique. A implementação foi lenta e parcial, com persistência do trabalho forçado e relações de dependência econômica semelhantes às observadas no Brasil.

Embora a abolição representasse uma mudança legal, as consequências sociais da exploração da maternidade escravizada continuaram a moldar a vida das comunidades afrodescendentes.

4.2. Persistência da desigualdade e exploração pós-abolição

A escravidão reprodutiva criou uma base demográfica e social que continuou a influenciar a sociedade mesmo após a emancipação formal. As mulheres afrodescendentes, apesar de legalmente livres, continuaram a enfrentar condições de exploração, muitas vezes substituídas por formas de trabalho semi-livre como o compadrio, arrendamento de trabalho e contratos de servidão temporária[53].

No Brasil, por exemplo, ex-escravizados continuaram a trabalhar nas mesmas fazendas ou em plantações de café e cana-de-açúcar, com remuneração precária. A ausência de políticas de redistribuição de terras e de acesso a educação perpetuou a vulnerabilidade econômica das famílias afrodescendentes, reforçando a herança da escravidão reprodutiva[54].

Nos Estados Unidos, a população afro-americana enfrentou o sistema de Jim Crow, que institucionalizou a segregação racial e a exploração do trabalho negro, incluindo o controle sobre a vida familiar e reprodutiva das mulheres afrodescendentes[55]. Estas estruturas legais e sociais reproduziram, de forma indireta, a lógica da escravidão reprodutiva, mantendo o controle sobre corpos e descendência.

4.3. Persistência cultural e resistência

A exploração da maternidade das mulheres escravizadas não conseguiu destruir a transmissão cultural e social das comunidades afrodescendentes. Pelo contrário, forçou a criação de estratégias adaptativas de resistência. As mulheres escravizadas desempenhavam papéis centrais na preservação de práticas religiosas, linguísticas e familiares.

Em muitos contextos, a maternidade tornou-se um instrumento de preservação cultural. As mães transmitiam histórias, práticas religiosas africanas, canções e línguas aos filhos, preservando elementos de identidade mesmo sob condições de extrema opressão[56]. Nos quilombos do Brasil, como o Quilombo dos Palmares, as mulheres foram decisivas na manutenção da coesão social, transmitindo conhecimentos agrícolas, médicos e militares às novas gerações[57]. Essa resistência não se limitava à sobrevivência física, mas incluía a resistência simbólica e cultural, onde a transmissão de saberes africanos se tornou um ato de contestação à lógica colonial e escravista.

Além disso, a maternidade tornou-se um espaço de subversão. Mulheres usavam estratégias para proteger os filhos da venda ou da exploração direta, como esconder crianças, negociar sua guarda ou recorrer a redes comunitárias. Estudos sobre o Maranhão e Bahia indicam que mulheres escravizadas muitas vezes exerciam influência sobre a socialização dos filhos, orientando-os para valores de solidariedade, resistência e autonomia dentro do limitado espaço de liberdade disponível[58].

Mesmo após a abolição, estas práticas culturais persistiram e transformaram as comunidades afrodescendentes. A transmissão intergeracional de saberes permitiu a reconstrução de identidades fragmentadas pela escravidão, criando uma base para movimentos sociais e culturais posteriores, como as tradições afro-brasileiras do Candomblé e do Samba, que incorporam elementos de resistência e memória histórica[59].

Nos Estados Unidos, a resistência cultural também se manifestou através da preservação de práticas religiosas e linguísticas afro-americanas. Por exemplo, a música, como o espiritual e posteriormente o gospel, tornou-se uma ferramenta de coesão e identidade comunitária, transmitindo narrativas de sofrimento, esperança e resistência[60]. A maternidade continuou a ser um ato de preservação e de resistência social, pois as mães transmitiam às crianças não apenas cuidados básicos, mas também formas de enfrentar discriminações e manter coesão familiar frente às leis de segregação.

4.4. A escravidão reprodutiva e o racismo estrutural contemporâneo

A exploração sistemática da reprodução das mulheres escravizadas teve efeitos duradouros, refletindo-se nas desigualdades sociais e raciais contemporâneas. A construção histórica das mulheres afrodescendentes como reprodutoras de força de trabalho contribuiu para estereótipos que ainda hoje impactam políticas públicas, o mercado de trabalho e a representação social.

 

No Brasil, a herança da escravidão reprodutiva está visível nas duplas barreiras enfrentadas por mulheres negras, que combinam discriminação racial e de género. Estatísticas recentes indicam que mulheres negras têm menor acesso a educação formal, enfrentam maiores taxas de desemprego e recebem salários inferiores mesmo quando possuem níveis de qualificação semelhantes aos homens brancos[61]. A exploração histórica da maternidade e do corpo feminino como propriedade produtiva contribuiu para a formação de estereótipos persistentes, incluindo a hipersexualização da mulher negra e a sua representação social como responsável exclusiva pela reprodução e cuidado familiar.

 

Nos Estados Unidos, os impactos da escravidão reprodutiva podem ser observados em desigualdades persistentes na saúde materna e infantil. Mulheres afro-americanas apresentam taxas mais altas de mortalidade materna e neonatal, reflexo de décadas de marginalização socioeconómica e racismo institucionalizado, incluindo limitações no acesso a cuidados de saúde e discriminação sistémica[62]. A experiência histórica da escravidão reprodutiva moldou políticas e práticas de saúde que ainda reproduzem desigualdades.

 

Além disso, o racismo estrutural contemporâneo manifesta-se na manutenção de barreiras económicas e legais. Em ambos os contextos, brasileiro e norte-americano, a população afrodescendente continua a enfrentar limitações no acesso a propriedade, crédito, educação e emprego, refletindo a continuidade de estruturas criadas para controlar corpos e descendência durante a escravidão[63].

 

A escravidão reprodutiva também impactou a estrutura familiar contemporânea. Estudos mostram que a fragmentação familiar e os padrões de cuidado compartilhado, comuns nas comunidades afrodescendentes, derivam diretamente da experiência histórica de separação forçada de mães e filhos, refletindo a adaptação das comunidades à opressão histórica[64].

 

Portanto, compreender a escravidão reprodutiva é essencial para analisar as raízes históricas das desigualdades raciais e de género, bem como as estratégias de resistência e reconstrução cultural que permitiram a preservação das identidades afrodescendentes.

A abolição formal da escravidão nas Américas não significou o fim imediato das consequências da escravidão reprodutiva. A exploração da maternidade das mulheres escravizadas deixou heranças profundas:

  1. Demográficas – fragmentação familiar e padrões populacionais específicos;
  2. Sociais – persistência da pobreza e marginalização das comunidades afrodescendentes;
  3. Culturais – preservação e transformação de identidades africanas;
  4. Económicas e políticas – manutenção de formas de exploração pós-emancipação e racismo estrutural.

Compreender estas dimensões é essencial para analisar a continuidade das desigualdades e o papel central das mulheres afrodescendentes na construção da resistência cultural e social nas Américas pós-escravistas.

 

5 – Impactos Sociais e Culturais da Escravidão Reprodutiva

A escravidão reprodutiva, centrada na apropriação da fertilidade das mulheres escravizadas, não se extinguiu com a abolição formal da escravatura nas Américas. Pelo contrário, os efeitos dessa exploração persistiram, moldando a demografia, a cultura, as estruturas familiares e as dinâmicas sociais e económicas das comunidades afrodescendentes. O presente capítulo analisa esses impactos de forma detalhada, destacando os legados históricos e as estratégias de resistência cultural e social que permitiram a preservação e reconstrução da identidade afrodescendente nas Américas.

5.1. Impactos demográficos

A reprodução forçada durante a escravidão deixou marcas profundas na estrutura populacional das sociedades pós-escravistas. A imposição da maternidade como instrumento de produção de força de trabalho resultou em famílias fragmentadas, onde filhos eram frequentemente separados das mães através de vendas, transferência entre propriedades ou deslocamentos forçados[65].

No Brasil, pesquisas históricas indicam que, mesmo após a abolição, as comunidades afrodescendentes mantinham redes familiares complexas e extensas, adaptadas à dispersão forçada de membros. Reis documenta que “as famílias negras pós-escravidão reconstruíram-se em redes de parentesco alargadas, permitindo a sobrevivência social e económica em contextos de vulnerabilidade extrema”[66].

Nos Estados Unidos, a separação de mães e filhos durante a escravidão gerou padrões de cuidado comunitário, onde a responsabilidade pela educação e proteção das crianças afro-americanas era compartilhada entre membros da comunidade, estabelecendo redes de solidariedade que persistiram durante o período de segregação[67].

Além disso, a reprodução forçada influenciou o crescimento populacional das comunidades afrodescendentes. A dependência da reprodução interna reduziu parcialmente a necessidade de importação constante de novos escravizados, o que teve impacto direto na composição demográfica das populações negras nas colónias.

5.2. Impactos sociais e Psicológicos

A escravidão reprodutiva deixou legados sociais que se manifestam em desigualdades persistentes. Mulheres afrodescendentes continuaram a ser alvo de exploração laboral e marginalização, tanto economicamente quanto socialmente. Telles observa que “as estruturas sociais pós-escravidão reproduziram a desigualdade histórica, onde o papel da mulher negra, historicamente associado à reprodução e ao trabalho doméstico, limitava oportunidades de mobilidade social”[68].

No Brasil, mesmo após a Lei Áurea, grande parte das mulheres negras permaneceu nas mesmas fazendas ou nas áreas urbanas mais pobres, desempenhando funções domésticas ou de serviços informais, com baixa remuneração. Esta continuidade da exploração económica é uma herança direta da escravidão reprodutiva, que condicionou a inserção social e laboral das comunidades afrodescendentes[69].

Nos EUA, a segregação legal (leis de Jim Crow) e a discriminação racial institucionalizada continuaram a limitar o acesso das mulheres afro-americanas à educação, emprego formal e recursos econômicos, refletindo a persistência da lógica de controle social e económico iniciada durante a escravidão[70].

A imposição reprodutiva teve consequências profundas no tecido social das comunidades cativas. Em primeiro lugar, provocou a destruição de vínculos familiares. Mulheres eram forçadas a gerar filhos de homens escolhidos pelos senhores, e muitas vezes esses filhos eram vendidos, rompendo laços maternos. Em segundo lugar, homens usados como reprodutores viam-se impedidos de exercer paternidade efectiva, já que as crianças geradas eram propriedade do senhor[71].

O trauma psicológico decorrente dessa exploração foi transgeracional. Harriet Jacobs testemunha o peso da violência sexual sistemática, referindo-se ao “pavor constante das exigências do senhor”[72]. Mulheres, para resistirem, por vezes recorriam a estratégias de contracepção natural ou ao aborto como forma de negar ao senhor novos “lucros”. Tais actos configuravam formas silenciosas de resistência, ainda que colocassem em risco as suas próprias vidas.

5.3. Impactos culturais

Apesar da opressão, a escravidão reprodutiva incentivou a resistência cultural, especialmente através da transmissão de práticas africanas pelas mulheres escravizadas. Esta transmissão incluiu linguagem, música, religião, medicina tradicional e rituais de passagem, garantindo que elementos da identidade africana sobrevivessem ao longo das gerações[73].

No Brasil, as práticas culturais afro-brasileiras, como o Candomblé, a Capoeira e o Samba, refletem a continuidade de saberes transmitidos durante o período da escravidão. Mulheres desempenharam papel central nesta preservação, ensinando e mantendo rituais religiosos e culturais dentro das famílias e comunidades[74].

Nos Estados Unidos, a música, a narrativa oral e as práticas religiosas afro-americanas funcionaram como ferramentas de resistência cultural, preservando memórias e criando coesão social em contextos de opressão contínua[75]. Essas práticas transformaram a maternidade em um espaço de preservação cultural, onde a transmissão de valores e identidades afrodescendentes se tornou estratégica e resiliente.

5.4. Impactos económicos

A exploração da reprodução feminina durante a escravidão moldou profundamente a economia das populações afrodescendentes. A escravidão reprodutiva garantiu mão de obra gratuita ou barata para os senhores, criando um ciclo de dependência econômica que persistiu após a abolição[76].

Após a abolição, as mulheres afrodescendentes continuaram a ocupar posições economicamente precárias, muitas vezes em trabalhos domésticos, agrícolas ou informais. Este padrão reproduziu desigualdades históricas, criando disparidades salariais significativas. Estudos indicam que, no Brasil contemporâneo, mulheres negras recebem em média menos de 60% do salário de homens brancos em funções equivalentes[77].

Nos EUA, a herança econômica da escravidão reprodutiva reflete-se em desigualdades no acesso à propriedade, crédito e emprego formal, perpetuando ciclos de pobreza e marginalização.

5.5. Racismo estrutural e gênero

A escravidão reprodutiva contribuiu diretamente para a construção de estereótipos raciais e de género que persistem atualmente. A percepção histórica das mulheres afrodescendentes como “reprodutoras de força de trabalho” moldou normas sociais e expectativas que limitam oportunidades e reforçam desigualdades[78].

No Brasil, essa lógica historicamente legitimada resulta em discriminação laboral, hipersexualização da mulher negra e responsabilidades sociais desproporcionais em termos de cuidado familiar[79]. Nos EUA, padrões semelhantes persistem, com disparidades em saúde materna, educação e representação política, refletindo as consequências históricas do controle sobre a reprodução feminina.

Além disso, a fragmentação familiar histórica continua a afetar a estrutura social contemporânea. A organização comunitária em redes de cuidado compartilhado, herdada de estratégias de resistência durante a escravidão, permanece presente, evidenciando tanto a resiliência quanto a herança de desigualdades estruturais[80].

 

Considerações finais

A escravidão reprodutiva deixou um legado multifacetado, cujos efeitos se estendem por séculos e se manifestam em dimensões demográficas, sociais, culturais e económicas, além de ter contribuído para a consolidação de formas persistentes de racismo estrutural. A exploração sistemática da maternidade das mulheres escravizadas não apenas assegurava a reprodução da força de trabalho para os senhores, como também reforçava estereótipos de gênero e raça que atravessaram gerações, moldando a vida de comunidades afrodescendentes nas Américas de maneira profunda e duradoura.

Paralelamente, a resistência cultural, social e familiar das mulheres afrodescendentes funcionou como um mecanismo de preservação e reconstrução identitária. As práticas religiosas, as formas de solidariedade comunitária, o cuidado intergeracional e a transmissão de saberes culturais constituíram estratégias vitais de sobrevivência e afirmação de humanidade frente à opressão. Esse protagonismo feminino demonstra que, mesmo em contextos de extrema vulnerabilidade, as mulheres escravizadas exerceram um papel central na manutenção de laços sociais, na resistência cultural e na construção de identidades coletivas africanas no Novo Mundo.

Além disso, compreender o legado da escravidão reprodutiva é essencial para a análise crítica das desigualdades contemporâneas. As persistentes disparidades socioeconômicas, o racismo estrutural, a violência de gênero e a marginalização de populações afrodescendentes têm raízes históricas que encontram eco nas práticas de escravidão e na imposição de papéis sociais desiguais. Reconhecer essa herança não é apenas um exercício de memória histórica, mas também um passo necessário para a formulação de políticas públicas efetivas voltadas para reparação, inclusão social e promoção da equidade de gênero e raça.

Em última análise, estudar a escravidão reprodutiva e suas consequências permite não apenas resgatar a voz e a agência das mulheres afrodescendentes historicamente silenciadas, mas também fundamentar uma reflexão crítica sobre como as estruturas de opressão do passado informam os desafios do presente. Só através do entendimento profundo dessas continuidades históricas será possível imaginar sociedades mais justas, em que a igualdade racial, de gênero e social deixe de ser uma promessa e passe a ser uma prática concreta.

 

 

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[1] PATTERSON, Orlando. Escravidão e Morte Social: Um Estudo Comparativo. Cambridge: Harvard University Press, 1982, p. 13.

[2] ROTH, Martha T. Coleções de Leis da Mesopotâmia e da Ásia Menor. Atlanta. Scholars Press, 1995, p. 87.

[3] WESTBROOK, Raymond. A Escravidão no Antigo Oriente Próximo. Oxford: Oxford University Press, 2003, p. 41.

[4] MENU, Bernard. A Escravidão no Egito Antigo. Paris: L’Harmattan, 2004, p. 56.

[5] MESKELL, Lynn. Arqueologias da Vida Social: Idade, Sexo, Classe etc. no Egito Antigo. Oxford: Blackwell, 1999, p. 112.

[6] ARISTÓTELES. Política. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, p. 25.

[7] XENOFONTE. Económico. São Paulo: Edusp, 1997, p. 78.

[8] JUSTINIANO. Digestum. Madrid: Editorial Trotta, 1998, p. 49.

[9] BRADLEY, Keith. Escravidão e Sociedade em Roma. Cambridge: Cambridge University Press, 1994, p. 72.

[10] PATTERSON, Orlando. Escravidão e Morte Social. Cambridge: Harvard University Press, 1982, p. 89.

[11] STOL, Marten. Mulheres no Antigo Oriente Próximo. Berlim: Walter de Gruyter, 2016, p. 233.

[12] BRADLEY, Keith. Escravidão e Sociedade em Roma. Cambridge: Cambridge University Press, 1994, p. 101.

[13] As Ordenações Filipinas, ou Código Filipino, são uma compilação jurídica que sucedeu as Ordenações Manuelinas e foi implementada em 1603 durante a União Ibérica, sob o reinado de Filipe II da Espanha (Filipe I de Portugal). Promulgadas como uma atualização e consolidação da lei portuguesa, essas ordenações vigoraram em Portugal e suas colónias, como o Brasil, até a promulgação de códigos civis posteriores, como o Código de Seabra (1867).

[14] FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Paris: Gallimard, 1976, p. 123.

[15] HANSEN, Mogens H. A Democracia Ateniense na Era de Demóstenes. Oxford: Blackwell, 1991, p. 59.

[16] MOURITSEN, Henrik. O Liberto no Mundo Romano. Cambridge: Cambridge University Press, 2011, p. 37.

[17] BONNASSIE, Pierre. Da Escravidão ao Feudalismo no Sudoeste Europeu. Cambridge: Cambridge University Press, 1991, p. 47.

[18] GARNSEY, Peter. Ideias de Escravidão de Aristóteles a Agostinho. Cambridge: Cambridge University Press, 1996, p. 102.

[19] LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Paris: Arthaud, 2005, p. 212.

[20] LAIOU, Angeliki. História Económica de Bizâncio. Washington: Dumbarton Oaks, 2001, p. 311.

[21] McCORMICK, Michael. Origens da Economia Europeia. Cambridge: Cambridge University Press, 2001, p. 209.

[22] LEWIS, Bernard. Raça e Escravidão no Médio Oriente. Oxford: Oxford University Press, 1990, p. 35.

[23] O termo era usado por geógrafos muçulmanos medievais para se referir a uma parte do Sudeste da África, como a costa do Swahili, e aos seus habitantes Bantu. É a origem de nomes como Zanzibar.

[24] Os eslavos são um grupo étnico e linguístico indo-europeu originário da Europa Oriental, que se dispersou para a Europa Central e Oriental, incluindo a Rússia, Polônia e os Bálcãs, a partir do século VI. Dividem-se em três subgrupos principais: eslavos orientais (russos, bielorrussos, ucranianos), ocidentais (poloneses, tchecos, eslovacos) e do sul (sérvios, croatas, eslovenos, entre outros). Historicamente, o termo "eslavo" também é associado à palavra latina sclavi, significando "escravos", devido ao grande número de eslavos que foram escravizados na Alta Idade Média.

[25] AHMED, Leila. Mulheres e Género no Islão. New Haven: Yale University Press, 1992, p. 123.

[26] TOLEDANO, Ehud. Escravidão e Abolição no Médio Oriente Otomano. Seattle: University of Washington Press, 1998, p. 78.

[27] OLIVEIRA MARQUES, António Henrique de. História de Portugal, Vol. I. Lisboa: Palas Editores, 1978, p. 301.

[28] VERLINDEN, Charles. A Escravidão na Europa Medieval, Vol. II. Gante: Rijksuniversiteit, 1977, p. 412.

[29] MEILLASSOUX, Claude. Antropologia da Escravidão. Paris: Maspero, 1991, p. 89.

[30] LOVEJOY, Paul. Transformações na Escravidão: Uma História da Escravidão em África. Cambridge: Cambridge University Press, 2000, p. 67.

[31] PATTERSON, Orlando. Escravidão e Morte Social: Um Estudo Comparativo. Cambridge: Harvard University Press, 1982, p. 89.

[32] GARNSEY, Peter. Ideias de Escravidão de Aristóteles a Agostinho. Cambridge: Cambridge University Press, 1996, p. 112.

[33] VIRGINIA LAW. Lei sobre Servos e Escravos. Virgínia: Colonial Records, 1662, p. 15.

[34] KLEIN, Herbert S. A Escravidão Africana na América Latina e no Caribe. Oxford: Oxford University Press, 2010, p. 41.

[35] BRASIL. Lei do Ventre Livre. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1871, p. 7.

[36] KARASCH, Mary. A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro, 1808–1850. Princeton: Princeton University Press, 1987, p. 134.

[37] MORGAN, Kenneth. Crescimento da População Escrava no Sul dos Estados Unidos. Columbia: University of South Carolina Press, 1975, p. 58.

[38] Idem, p. 64.

[39] SCHWARTZ, Stuart B. As Plantações de Açúcar e a Formação da Sociedade Brasileira: Bahia, 1550–1835. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 212.

[40] KARASCH, Mary. A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro, 1808–1850. Princeton: Princeton University Press, 1987, p. 148.

[41] SCHWARTZ, Stuart B. As Plantações de Açúcar e a Formação da Sociedade Brasileira: Bahia, 1550–1835. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 218.

[43] MORGAN, Jennifer. Mulheres Trabalhadoras: Reprodução e Género na Escravidão do Novo Mundo. Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 2004, p. 88.

[44] BERRY, Daina R. O Preço pela Sua Própria Carne. Boston: Beacon Press, 2017, p. 102.

[45] WHITE, Deborah G. Não Sou Eu Uma Mulher? Escravas no Sul das Plantações. Nova Iorque: Norton, 1999, p. 45.

[46] DAVIS, Angela. Mulheres, Raça e Classe. Nova Iorque: Random House, 1981, p. 27.

[47] BAPTIST, Edward E. A Outra Metade Nunca Foi Contada. Nova Iorque: Basic Books, 2014, p. 111.

[48] JOHNSON, Walter. Alma por Alma: Vida Dentro do Mercado de Escravos Antebellum. Cambridge: Harvard University Press, 1999, p. 113.

[49] BERRY, Daina R. O Preço pela Sua Própria Carne. Boston: Beacon Press, 2017, p. 145.

[50] SCHWARTZ, Stuart B. A Escravidão na Sociedade Brasileira: Bahia, 1550–1835. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 21.

[51] FONER, Eric. Reconstrução: A Revolução Inacabada da América, 1863–1877. Nova Iorque: Harper & Row, 1988, p. 102.

[52] KLEIN, Herbert S. A Escravidão Africana na América Latina e no Caribe. Oxford: Oxford University Press, 2010, p. 78.

[53] LOVEJOY, Paul. Transformações na Escravidão: Uma História da Escravidão em África. Cambridge: Cambridge University Press, 2000, p. 201.

[54] REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: A Revolta Muçulmana de 1835 na Bahia. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1993, p. 65.

[55] LITWACK, Leon. Problemas na Mente: Negros do Sul na Era Jim Crow. Nova Iorque: Knopf, 1998, p. 213.

[56] SCHWARTZ, Stuart B. Mar de Tempestades: Uma História do Comércio Atlântico de Escravos. New Haven: Yale University Press, 1994, p. 187.

[57] HALL, Stuart. Identidade Cultural e Diáspora. Londres: Routledge, 1992, p. 56.

[58] REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: A Revolta Muçulmana de 1835 na Bahia. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1993, p. 102.

[59] OLIVEIRA, Reginaldo. Candomblé e Resistência Cultural. São Paulo: UNESP, 2008, p. 45.

[60] RABOTEAU, Albert J. Religião Escrava: A “Instituição Invisível” no Sul Pré-Guerra Civil. Oxford: Oxford University Press, 2004, p. 233.

[61] TELLES, Edward E. Raça em Outra América: O Significado da Cor da Pele no Brasil. Princeton: Princeton University Press, 2004, p. 76.

[62] BRYANT, A. S. et al. Disparidades Raciais nos Resultados Obstétricos e no Cuidado. Obstetrics & Gynecology, 109(6), 2007, p. 1312.

[63] WILLIAMS, David R.; COLLINS, Chiquita. Segregação Residencial Racial: Uma Causa Fundamental das Disparidades Raciais na Saúde. Public Health Reports, 116(5), 2001, p. 404.

[64] HILL, Marcus. Família e Parentesco na Comunidade Afro-Americana. Nova Iorque: Oxford University Press, 2001, p. 56.

[65] REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: A Revolta Muçulmana de 1835 na Bahia. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1993, p. 102.

[66] SCHWARTZ, Stuart B. As Plantações de Açúcar e a Formação da Sociedade Brasileira. Cambridge: Cambridge University Press, 1985, p. 221.

[67] HILL, Marcus. Família e Parentesco na Comunidade Afro-Americana. Nova Iorque: Oxford University Press, 2001, p. 59.

[68] TELLES, Edward E. Raça em Outra América: O Significado da Cor da Pele no Brasil. Princeton: Princeton University Press, 2004, p. 76.

[69] BRYANT, A. S. et al. Op. cit, p. 1312.

[70] LITWACK, Leon. Problemas na Mente: Negros do Sul na Era Jim Crow. Nova Iorque: Knopf, 1998, p. 213.

[71] Patterson, O.,1982, p. 55.

[72] JACOBS, Harriet. Incidentes na Vida de uma Escrava. Nova Iorque: Modern Library, 2000 [1861], p. 41.

[73] HALL, Stuart. Identidade Cultural e Diáspora. Londres: 1992, p. 56.

[74] OLIVEIRA, Reginaldo. Candomblé e Resistência Cultural. 2008, p. 45.

[75] RABOTEAU, Albert J. 2004, p. 233.

[76] KARASCH, M., 1987, p. 134.

[77] TELLES, E. E., 2004, p. 89.

[78] WILLIAMS, D. R., & Collins, C., 2001, 116(5), p. 404.

[79] BRYANT, A. S., et al. 2007, p. 1313.

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